poetry&flowers I.
"
Olha a vida e sorri.
E não te perguntes para quê.
Porque o mais extraordinário dela é justamente não ter para quê.
Saber para quê é dar-lhe uma finalidade conclusa, limitá-la, fechar-lhe o seu excesso.
Pensa assim que o seu absurdo é a sua maior razão.
Nem desvaires em palhaçada, que é ainda uma forma de te doeres com ela.
A gratuitidade de uma oferta não é a sua maior valia?
A vida não se te dá como uma esmola de senhora caritativa.
A vida dá-se-te espontaneamente , sem razão alguma para esse dar.
Não queiras inventar uma razão para a razão nenhuma disso.
Haverá uma ordem no infinito, não a queiras pensar agora.
Porque pensar nela é ainda achar uma razão.
(...)
A tua vida é o acaso sobre que não há que teres perguntas, como a ave se não pergunta ao cantar, ou a flor ao florir num lugar onde ninguém passa.
Não perguntes.
Ou pergunta apenas para apenas saberes que perguntaste e que não valia a pena perguntar.
E agora que perguntaste e não perguntas mais, concentra toda a tua energia e curiosidade e excitação, no ver, ouvir e sorrir para dentro, onde é o sítio do teu apaziguamento, por teres podido ver e ouvir. (...)
Sê grato e contente.
E cala. "
Vergílio Ferreira, in Pensar.
Na imagem: "Nenúfares", de Monet.
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