Mostrar mensagens com a etiqueta Prosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Prosa. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de janeiro de 2010

O baile.

"Acreditava-se nisso. Que o baile não era um simples conjunto de movimentos mais ou menos coordenados entre duas pessoas. Muito longe disso.

Tratava-se não somente de uma relação física, mas também de uma relação espiritual. Partilhar passos de dança era como que estar lado a lado numa experiência última e definitiva.

No baile, entre o par de dançarinos, como que existia um processo de osmose em que dois se transformavam num; equilibravam-se as substâncias, as suas concentrações, de modo a que no final não existissem desequilíbrios. Era impossível um casal dançar harmoniosamente, como se diz, sem que existisse entre eles uma circulação interna de materiais não visíveis.

Se um era bastante mais irascível do que o outro, no final tal não se notava; um ganhara, digamos assim, algumas gramas dessa característica enquanto o outro as perdera.

O baile era assim um método elegante de corrigir os desequilíbrios intelectuais, físicos, morais, económicos, culturais e comportamentais.

A verdade é que, quando as pessoas perceberam o efeito dos bailes, estes terminaram. Ninguém queria perder para o outro, para o seu parceiro, aquela concentração de qualidades que julgava ter. Cada um estava tão contente com pelo menos uma parte de si próprio que pensava que ficaria sempre a perder, qualquer que fosse o seu par.

Uns não queriam perder parte da sua inteligência, outros não queriam perder parte da sua musculatura, outros do seu dinheiro, outros da sua cultura.

As danças a dois terminaram.

Ficaram só as danças solitárias.

Um ou outro, dançando ainda, como que a recordar tempos antigos, frente ao espelho."

Gonçalo M. Tavares

sábado, 16 de janeiro de 2010

poetry&flowers I.


" Olha a vida e sorri.

E não te perguntes para quê.

Porque o mais extraordinário dela é justamente não ter para quê.

Saber para quê é dar-lhe uma finalidade conclusa, limitá-la, fechar-lhe o seu excesso.

Pensa assim que o seu absurdo é a sua maior razão.

Nem desvaires em palhaçada, que é ainda uma forma de te doeres com ela.

A gratuitidade de uma oferta não é a sua maior valia?

A vida não se te dá como uma esmola de senhora caritativa.

A vida dá-se-te espontaneamente , sem razão alguma para esse dar.

Não queiras inventar uma razão para a razão nenhuma disso.

Haverá uma ordem no infinito, não a queiras pensar agora.

Porque pensar nela é ainda achar uma razão.

(...)

A tua vida é o acaso sobre que não há que teres perguntas, como a ave se não pergunta ao cantar, ou a flor ao florir num lugar onde ninguém passa.

Não perguntes.

Ou pergunta apenas para apenas saberes que perguntaste e que não valia a pena perguntar.

E agora que perguntaste e não perguntas mais, concentra toda a tua energia e curiosidade e excitação, no ver, ouvir e sorrir para dentro, onde é o sítio do teu apaziguamento, por teres podido ver e ouvir. (...)

Sê grato e contente.

E cala. "

Vergílio Ferreira, in Pensar.

Na imagem: "Nenúfares",  de Monet.

Alameda de Tílias