o verão é de azulejo

"Ignorar que vivemos/cumpre bastante a vida." - Ricardo Reis

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Quase de nada místico





Não, não deve ser nada este pulsar

de dentro: só um lento desejo

de dançar. E nem deve ter grande

significado este vapor dourado,



e invisível a olhares alheios:

só um pólen a meio, como de abelha

à espera de voar. E não é com certeza

relevante este brilhante aqui:



poeira de diamante que encontrei

pelo verso e por acaso, poema

muito breve e muito raso,

que (aproveitando) trago para ti.





de Às Vezes o Paraíso



Ana Luísa Amaral

Anos 90 e agora

Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa

edições quasi


Na foto: seated young lady (Egon Schiele)

domingo, 27 de Dezembro de 2009

Ló, de sempre.


Percorrer, a par e passo, a travessa de Cedofeita, que os pés sabem decor.
Ao longe, o burburinho que nos guia para a Casa de Ló, antiga mercearia `Margaridense`, conhecida pelo seu pão-de-ló, hoje transformada numa casa de chá que a noite prolonga em bar.
Os reencontros surgem com a graça do improvável, as conversas acendem-se no terraço, entrecortadas pelos brindes com copos de pé alto de vinho tinto.
A verdade é que encontro uma certa graça nos pormenores formais dos ambientes informais, como se os copos elegantes e as caixas de bombons d`Avianense fizessem ali mais sentido do que num espaço requintado.
Ali, num pequeno terraço, com paredes de pedra e algumas mesas de madeira pintada, onde a música é feita do entusiasmo das vozes abertas como gargalhadas.
Posso ter conhecido a casa ontem ou desde sempre.

O percurso inverso retoma a Travessa de Cedofeita, que as saudades, mais do que os pés, sabem decor.


quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Johnny Cash@"get the rythm"

domingo, 13 de Dezembro de 2009

Gosto de saber um Inverno lá fora.



Noite de sábado e um frio ártico em Lisboa.

Afasto a imagem da multidão que se acotovela nas ruas do Bairro Alto e volto ao "Chapitô", como voltaria à "Velha- a - Branca", se estivesse em Braga, ou à "Casa do Livro", se parasse no Porto.

Há lugares assim, que o inverno torna indescritivelmente mais bonitos.

No Chapitô, como na Fábrica do Braço de Prata, fascina-me o conceito de "casa". Percorro, encantada, sala após sala, a confluência de música, livros e artes plásticas.

Gosto de jantar rodeada de estantes de livros e candeeiros de ténue luz em mesas de madeira compridas e estreitas. O gira-discos no canto. Os quadros de cores quentes pendurados sobre a copa. E as flores. Como numa casa.

As mesas estão próximas e, ainda que os desconhecidos não se falem, há uma afinidade de olhares que nos imobiliza num estado de quase tertúlia. Como parentes afastados de uma grande família.

Ontem, o Chapitô foi uma casa assim.

À sua luz de circo, somavam-se as luzes de Natal e a vista sobre uma cidade que se vestiu de festa.

Tornava-se impossivel estarmos ali e não nos sentirmos parte daquela celebração sem motivo aparente.

Nunca se regressa verdadeiramente disto,

pois não?


 [imagem retirada do blog olhares.com]





terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

chet baker@ time after time


segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

À mesa de frades.



Na Rua dos Remédios, em Alfama, há um portão verde escuro que se fecha pela noite dentro para deixar entrar o fado.

Naquela que foi outrora a capela de um palácio setecentista, e hoje é uma casa de fados, aquietei um dia de trabalho na voz de Pedro Moutinho.

Uma semi-luz quebrou nos painéis de azulejos em volta e cada rosto ilunimado recuperou na profundidade das letras o coeficiente emocional trespassado nas horas.

Como se o fado não fosse senão isto: a celebração colectiva da nostalgia que nos une.

sábado, 14 de Novembro de 2009

Cassiopeia-Mãe.


É por ti que continuam

A Cassiopeia de estrelas

Os colares de conchas brancas

Os ramos de margaridas

As flores de buganvília

E o aroma de alfazema

Em lençóis de linho.

És tu quem o meu gesto

Devolve em fios de prata.

És tu em todos os poemas

E sobretudo naqueles

Em que nunca veio escrito

O teu nome.

["Mãe e Filho", por P.Picasso]

Alameda de Tílias