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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A espera(nça).


"Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo

Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.


Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.


Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.


E de novo caminho para o mar."


Sophia de Mello Breyner Andresen

[fotografia de Fernando Lemos]



quinta-feira, 8 de julho de 2010

Digo "Lisboa".



Digo:


"Lisboa"


Quando atravesso - vinda do sul - o rio


E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse


Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna


Em seu longo luzir de azul e rio


Em seu corpo amontoado de colinas -


Vejo-a melhor porque a digo


Tudo se mostra melhor porque digo


Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência


Porque digo


Lisboa com seu nome de ser e de não-ser


Com seus meandros de espanto insónia e lata


E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro


Seu conivente sorrir de intriga e máscara


Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata


Lisboa oscilando como uma grande barca


Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência


Digo o nome da cidade


- Digo para ver


"Lisboa"


Sophia de Mello Breyner Andresen

Na imagem: desenho de Manuel Faia.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Estão ali sendo entretanto. Como nós.

Os livros estão sempre sós.

Como nós.

Sofrem o terrível impacto do presente.

Como nós.

Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.

Como nós.

Calam a sua fúria com a sua farsa.

Como nós.

Têm fachadas lisas ou não.

                                                                Como nós.

                                                                Formosas, delirantes, horrorosas.

                                                                Como nós.

                                                                Estão ali sendo entretanto. Como nós.

                                                                No limiar do esquecimento. Como nós.

                                                               Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.



Ana Hatherly, in 'Tisanas'
Na imagem: Vieira da Silva, L’Issue Lumineuse, 1983-86

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ODE (doméstica ou não).


"
tudo no teu sorriso diz

que só te falta um pretexto
para seres feliz


uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas


um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor

eu


vou pensando em coisas velhas
- sem sombra de desdém! -


na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem


e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado


e declina, o dia
o pequeno pastor já não vem. "

Mário Cesariny


Manual de prestidigitação

Na imagem: "mulher com chapéu", A. Modigliani
 
  n.b.: merci mr. P.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Las calles de Buenos Aires.



Las calles de Buenos Aires



ya son mi entraña.



No las ávidas calles,



incómodas de turba y de ajetreo,



sino las calles desganadas del barrio,



casi invisibles de habituales,



enternecidas de penumbra y de ocaso



y aquellas más afuera



ajenas de árboles piadosos



donde austeras casitas apenas se aventuran



abrumadas por inmortales distancias,



a perderse en la honda visión



de cielo y de llanura.



Son para el solitario una promesa



porque millares de almas singulares las pueblan



únicas ante Dios y en el tiempo



sin duda preciosas.



Hacia el Oeste, el Norte y el Sur



se han desplegado – y son también la patria – las calles:



ojalá en los versos que trazo



estén esas banderas.»

 
Jorge Luís Borges, "Fervor de buenos aires"
 
 

Alameda de Tílias